A Jornada de Dariel ao Inferno
Antes de ler a história é bom que você saiba que minha narrativa foi baseada em duas obras: "A Batalha do Apocalipse", de Eduardo Spohr, da qual usei a ideia da luta entre anjos e demônios e no quadro "Mappa Dell'Inferno", de Sandro Botticelli, que por sua vez foi baseado na obra "A Divina Comédia", de Dante Alighieri. Antes que você leia a narrativa que criei, seria interessante que visse as características do quadro e toda a divisão dos níveis infernais que estão representados nele. Dito isso, deixo a seguir a imagem do quadro e os detalhes sobre ele:
A
estrutura do Inferno criado
por Dante é em forma de cone invertido, ou funil, que degrada em
nove círculos até o centro da Terra, onde se encontra Lúcifer. Em
cada círculo, os condenados são punidos por um pecado específico,
de acordo com a seguinte estrutura:
Primeiro
círculo: limbo
(local para não batizados e pagãos);
Segundo
círculo: luxúria;
Terceiro
círculo: gula;
Quarto
círculo: avareza;
Quinto
círculo: ira
e preguiça;
Sexto
círculo: heresia;
Sétimo
círculo: violência.
Ele
é dividido em três anéis:
Anel
externo: violência
contra pessoas e propriedades;
Anel
do meio: suicidas
e devassos;
Anel
interno: violência
contra Deus (blasfêmia) e contra a natureza.
Oitavo
círculo: fraude:
Chamado
de Malebolde (que
significa valas do mal), é dividido em dez valas ou fossas.
Primeira vala: sedutores;
Segunda vala: bajuladores;
Terceira vala: quem comete simonia (venda de favores divinos);
Quarta vala: feiticeiros, astrólogos e falsos profetas;
Quinta vala: políticos corruptos;
Sexta vala: hipócritas;
Sétima vala: ladrões;
Oitava vala: conselheiros fraudulentos ou malvados;
Nona vala: semeadores da discórdia;
Décima vala: falsificadores.
Primeira vala: sedutores;
Segunda vala: bajuladores;
Terceira vala: quem comete simonia (venda de favores divinos);
Quarta vala: feiticeiros, astrólogos e falsos profetas;
Quinta vala: políticos corruptos;
Sexta vala: hipócritas;
Sétima vala: ladrões;
Oitava vala: conselheiros fraudulentos ou malvados;
Nona vala: semeadores da discórdia;
Décima vala: falsificadores.
Nono
círculo: traição:
O
último círculo é dividido em outros quatro:
Primeiro
círculo: traição
a parentes;
Segundo
círculo: traição
a entidades políticas, como partidos, cidades ou países;
Terceiro
círculo: traição
a seus convidados;
Quarto
círculo: traição
a seus senhores ou benfeitores
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A Jornada de Dariel ao Inferno
O
general Dariel, grande guerreiro querubim dos céus, fora escolhido
pelo príncipe arcanjo Miguel como o encarregado da missão mais
difícil desde os primórdios da guerra entre o Céu e o Inferno. Ele
teria que ir aos domínios de Lúcifer para resgatar o anjo
Raziel,
protetor dos segredos divinos, que fora capturado pela horda
comandada por Belzebu após uma batalha entre tropas celestiais e
demoníacas.
-
Confio em você, Dariel, não há outro querubim nos sete céus que
possa completar esta missão – disse Miguel.
-
Não falharei, senhor. – respondeu Dariel.
-
Tome, aqui está o mapa do Inferno. Não se esqueça de que Raziel
está no nono e último círculo infernal.
-
Sim, senhor.
Dariel
teria pela frente um caminho traiçoeiro. O inferno era dividido em
nove círculos infernais, onde a cada nível ele teria que tentar
passar despercebido pelas tropas demoníacas ou enfrentar oponentes
isolados, caso contrário as chances de falhar em sua missão eram
enormes.
Sempre
calculista, Dariel chegou ao primeiro nível infernal munido de sua
espada, a Ceifadora, e, olhando o mapa, avistou a entrada do túnel
para o segundo nível, do qual, sem problemas, pôde passar despercebido por
demônios de baixa classe que por ali estavam.
Assim
seguiu Dariel em sua jornada; sorrateiro e cuidadoso, passou pelos
primeiros cinco níveis sem problemas. Nesses níveis estavam as
almas daqueles que haviam cometido pecados de menores graus, os não
batizados, os luxuriosos, os gulosos e os avarentos. À medida que
chegava aos níveis mais inferiores pôde contemplar cenários
horrendos de dor e sofrimento. Os luxuriosos eram atormentados por
chuva e ventos fortes; os gulosos dilacerados por Cérbero, o cão de
três cabeças.
Ao
chegar no quinto nível passou pelo famoso rio Estige de águas
rubras e borbulhentas, onde se encontrava a passagem para o sexto
círculo. Após uma travessia difícil chegou ao nível seguinte e
logo foi encurralado por um pequeno grupo de demônios liderados por
Belphegor, um dos capitães das tropas demoníacas, que prontamente
se aproximou.
-
Ora, ora, não é todo dia que recebemos uma visita divina. O que faz
aqui, ó magnífico ser celestial – ironizou o demônio.
-
Não lhe devo satisfações, criatura asquerosa. Deixe-me passar e
prometo que pouparei sua miserável vida – retrucou Dariel.
-
Acha mesmo que simplesmente deixarei que você passe, anjinho? –
disse a gargalhadas - Peguem-no!
Os
demônios investiram com suas foices e espadas e Dariel repleto de
destreza esquivava e contra-atacava com maestria, degolando e
perfurando cada demônio que o atacava até que restasse apenas
Belphegor caído no chão e sem uma das mãos, que fora decepada pelo
fio amolado da Ceifadora. Assustado com tamanha vigorosidade do anjo,
indagou:
-
Quem é você?! Como pôde nos vencer com tanta facilidade?!
Dariel,
postado de pé em frente ao demônio, a armadura prateada reluzente e
manchada com o sangue negro de Belphegor e seu grupo, disse enquanto
estocava a Ceifadora na jugular do capitão infernal:
-
Sou Dariel, general da terceira legião celeste.
O
cenário ficava cada vez mais assustador. Dariel passou pelo rio
Flegeonte, que era formado pelo sangue das vítimas daqueles que
foram violentos; procurava seguir as rotas marcadas no mapa,
emboscava alguns demônios que por ali estavam e chegou, enfim, ao
vale dos suicidas e dos que atentaram contra Deus e a natureza.
O
oitavo círculo era sem dúvidas o mais cruel de todos. Dividido em
dez fossos, ali pessoas eram torturadas em lagos de piche ferventes,
enterrados de cabeça para baixo e envolvidos em chamas eternas. A
atmosfera emanava dor, ódio e pavor. Finalmente chegara ao nono e
último círculo, que era dividido em quatro esferas, e agora tinha
que buscar Raziel. Após caminhar bastante avistou uma espécie
de calabouço e, sorrateiramente, se aproximou e pôde ver Raziel
acorrentado, suas asas cortadas e seu sangue celestial dourado por
toda a parte. Numa súbita perda de estratégia ao ver seu
companheiro em tal situação, Dariel correu em direção às
correntes para libertar o anjo preso, quando de repente sentiu uma
dor aguda em seu ombro esquerdo e percebeu que acabara de ser
espetado por uma lança e, ao olhar para trás, viu um demônio com
cabeça de bode, um corpo imenso e o peito com uma tatuagem circular
com o símbolo de sua própria cabeça rodeado por inscrições
demoníacas, rindo e apontando para ele.
-
Estava lhe esperando, donzela divina – disse o demônio com sua voz
gutural.
-
Então é você, Belzebu, ser traiçoeiro. O que você fez com
Raziel? – perguntou Dariel furioso.
-
Apenas estive brincando um pouco com ele, mas o infeliz se recusa a
abrir a boca.
-
Você vai pagar por isso, Belzebu. Vai se arrepender do que fez com
Raziel.
-
É o que vamos ver, fadinha.
Soltando um urro pavoroso Belzebu partiu para cima de Dariel com golpes
poderosos de sua maça de metal negro. A cada golpe que Dariel
esquivava percebia que aquele não era um adversário comum. Belzebu
era com certeza o demônio mais forte de todos os círculos
infernais, estando atrás apenas do próprio Lúcifer. Em combate ele
era tomado pela fúria e desejo de matar, não sossegava enquanto não
destruía seu oponente com sua enorme arma apelidada de
Quebra-crânios. Dariel, sentindo que não derrotaria seu oponente
medindo forças, decidiu usar sua agilidade e destreza para dominar o
ritmo da peleja. Ele contra-atacava e, encontrando um momento
oportuno, conseguiu estocar a Ceifadora no ombro esquerdo do demônio,
que aproveitou a oportunidade e agarrou seu pescoço com uma de suas
mãos fortes e peludas.
-
Finalmente o peguei, fadinha! Agora não tem para onde correr! –
esbravejou Belzebu revigorado.
Dariel
tentava desesperadamente se livrar de Belzebu; suas mãos pareciam
infantis comparadas às do demônio. Belzebu o golpeou diversas vezes
com o cabo de sua maça e quando finalmente ergueu sua mão, a
Quebra-crânios empunhada e pronta para fazer jus ao seu nome, Dariel
agarrou um dos chifres do demônio, puxou a cabeça dele para perto
de si e com a outra mão sacou a adaga que mantinha guardada em sua
armadura e o cegou com um golpe certeiro. O ser meio homem
meio caprino soltou um urro de dor que pôde ser escutado até mesmo
nos outros círculos infernais, largou Dariel e levou uma das mãos
ao rosto que sangrava muito.
-
Você me paga, miserável! – gritou Belzebu cheio de ira. – Agora
já chega, minha Quebra-crânios sentirá o sabor de seu sangue de
fada.
Sem
estratégia alguma, o demônio partiu para cima de Dariel, que, nesse
meio tempo, havia recuperado sua espada que estava cravada no
inimigo. Belzebu o atacou com uma força assustadora, porém Dariel
se esquivou com muita agilidade e viu a Quebra-crânios cravada no
chão a centímetros de seu corpo. Aproveitando-se da situação ele
deslizou para as costas do demônio e, com um golpe certeiro, cravou
a Ceifadora na nuca de seu oponente, que logo caiu de joelhos,
agonizando e afogando-se em seu próprio sangue negro e pútrido.
Dariel derrotara o grande general Belzebu. Um fato que sem dúvidas
entraria para a história deste confronto eterno entre anjos e
demônios. Finalmente chegara a Raziel, que estava desacordado, e o chamou, tocou em seu rosto e finalmente seu companheiro
despertou.
-
Você está bem Raziel? Vim tirá-lo daqui.
-
Dariel, é você? Que bom que conseguiu me encontrar. Já havia
perdido as esperanças.
-
Agora tudo acabou! Vamos, precisamos sair daqui antes que o próprio
Lúcifer venha nos matar.
Dariel
quebrou as correntes com a Ceifadora e libertou Raziel para que logo
seguissem em direção à última esfera do nono círculo infernal;
ajudou seu companheiro a caminhar e conseguiram, com muita
dificuldade, chegar à saída do inferno que era no centro da Terra.
Já fora da última esfera foram surpreendidos pelo próprio Lúcifer,
um ser de beleza imensurável que portava uma
coroa feita de ossos; a armadura e as asas negras emanando imponência.
Ele os encurralara com uma vasta horda de demônios.
-
Vejo que conseguiu passar por meu general Belzebu, Dariel. Confesso
que não achei que seria capaz. – disse Lúcifer, com a voz suave e
calma.
-
Deixe-me passar, Lúcifer, não há sentido em promover mais mortes.
– respondeu Dariel.
-
Mortes? Ora, não seja tolo, Dariel, apenas uma morte será
necessária.
Com
um simples gesto, Lúcifer deu o comando às suas tropas que se
preparavam para atacar Dariel, quando de repente centenas de seres
alados de armaduras de bronze e prata caíram agachados numa
sincronia espetacular, cada qual com uma mão no solo e a outra em
seu sabre. À frente estavam os líderes arcanjos: Rafael, Gabriel,
Uriel e o príncipe Miguel, todos usando armaduras douradas e
reluzentes.
-
Pare, Lúcifer! Volte para seu covil. – ordenou Miguel.
-
Então você veio em pessoa, irmão. Confesso que não esperava sua
presença aqui. O próprio príncipe arcanjo nas fronteiras de meus
domínios... – respondeu Lúcifer, a voz sempre suave; e, apontando
para Dariel, completou: - Que tal fazer um acordo? Afinal, já que
perdi um dos meus generais, seria justo que você perdesse um dos
seus.
-
Não tenho tempo para suas palavras ardilosas, Lúcifer. Abra
passagem agora mesmo! – disse Miguel.
-
O sempre rude e frio Miguel. Você crê que nosso Pai ficará
orgulhoso? – retrucou Lúcifer sarcasticamente.
Lúcifer
é um ser extremamente poderoso; entretanto, percebendo sua
inferioridade numérica, sabia que lutar contra os arcanjos e uma
legião inteira não seria uma boa alternativa para ele e decidiu
retirar-se, voltando ao nono círculo infernal lentamente.
-
Acho que por hoje farei o que me pede, irmão, mas não me esquecerei
deste momento. – disse Lúcifer, sua armadura negra confundindo-se
com as trevas do Inferno.
Agora
com a ausência das tropas infernais, Dariel e Raziel juntaram-se à
legião que os aguardava. Dariel concluíra sua missão e ganhara o
posto de grão-general das legiões celestes, posto logo abaixo dos
quatro grandes arcanjos. Graças a ele, os segredos divinos seguirão
guardados.


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